Voz indesejada

Algumas coisas na vida nos são impostas. Não são muitas, mas freqüentemente estamos ''engolindo sapos''. A ''Voz do Brasil'' é um típico exemplo, um ''sapo'' que engolimos diariamente. Ao fim de um dia longo de trabalho, cheio de compromissos, você está finalmente dirigindo para casa, logicamente na companhia de milhares de outros carros. Está em busca de entretenimento e notícias. Liga o rádio. De repente, aparece algo muito estranho. É ela. A voz do Brasil. Você tenta mudar de estação. Nenhuma emissora se esqueceu de colocar no ar o programa. As notícias e as músicas que o rádio toca, você não as ouvirá pelo menos por uma hora.
Pobre Carlos Gomes. O Guarani é prelúdio de ira nacional. Desde a época getulista, há mais de 50 anos, o governo se vê no direito de impor a voz que não queremos ouvir - e pior: bem na hora do trânsito. Mas fique tranqüilo, porque exatamente o que você faz, desligar o rádio, é a atitude da absoluta maioria. Exatamente às 19h encontramos o mais baixo índice de audiência - e de cobertura - do meio rádio. Os dois maiores institutos de pesquisa de mídia brasileiros, o Ibope e o Marplan, atestam que o horário de pior audiência do rádio é exatamente o das 19h. Depois dessa catástrofe, a audiência volta a crescer, numa prova de que ''A Voz do Brasil'' é absolutamente indesejada.

É muita pretensão acreditar que esse programa, ao utilizar a mesma abordagem editorial, fale com o Brasil inteiro, considerando as dimensões, características regionais e segmentação de público. O conteúdo é inadequado, impertinente e de pouco interesse para os ouvintes, sem falar na linguagem, nada dinâmica e de baixa qualidade sonora. É um programa político sem conteúdo e de credibilidade duvidosa.

Além de provocar uma enorme queda na audiência do rádio, a voz indesejada causa grandes prejuízos às emissoras. Justamente em horário extremamente propício à obtenção de altas audiências, as emissoras são obrigadas e transmitir o programa em rede. Ninguém resiste a ligar o CD, o toca-fitas ou, no desespero, a desligar definitivamente o aparelho, face ao aborrecimento que o programa proporciona. Não dá para suportar, no fim do dia, enfrentando o rush, o ''fundo sonoro'' impertinente que nos conta do aniversário de uma cidade da qual nunca ouvimos falar e à qual o nobre deputado deseja muitas felicidades.

O rádio, nos dias de hoje, terá de ser compreendido de maneira diferente. Já não é, com a concorrência da TV e de uma infinidade de outras mídias, o meio de comunicação soberano.

Uma atitude de bom senso foi tomada recentemente pela Câmara e pelo Senado. Com a criação de um canal exclusivo de TV, agora os deputados e senadores falam e aparecem quanto tempo desejam, sem interferência na vida dos telespectadores. No fundo, a audiência é pífia. Só deu sinal de vida nos recentes episódios de renúncias a mandatos.

Com o avanço da tecnologia nas comunicações, poderíamos eliminar, no mínimo, a obrigatoriedade de transmissão da ''Voz do Brasil''. Talvez o correto fosse também a criação de um canal de rádio, tanto para a Câmara como para o Senado. Seria o mínimo esperado de quem pensa que entende de comunicação. Ou poderíamos sugerir um novo programa em rede na TV, ''A visão do Brasil'', exibido exatamente às 19h em todas as emissoras, incluídas as de assinatura. Ligaríamos nossa TV e eles estariam lá também. Não seria o máximo?



Jornal do Brasil, 02 de novembro de 2001.
Por: Antonio Rosa Neto


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