Rádio mantém
espaço e mercado cativo no País
Na era virtual, o velho
radinho ainda tem mercado garantido ao lado de eletrônicos sofisticados,
como TV de plasma e computadores que só faltam falar. Tanto é
que as poucas marcas existentes têm planos para aumentar a oferta
do produto e lançar novos modelos nos próximos meses.
Calcula-se que são vendidos por ano cerca de 1 milhão
de rádios no País, embora o item nem conste das estatísticas
do setor eletroeletrônico. Os volumes podem parecer reduzidos
se comparados à produção de TVs, que somou no ano
passado 5,4 milhões de unidades. Já o mercado de computadores
pessoais gira cerca 3 milhões de aparelhos por ano.
A indústria está voltando a se interessar pelo produto
porque ele tem um mercado eclético e cativo: do vigilante ou
freqüentador dos campos de futebol, passando pela população
rural, a altos executivos. Acacio Queiroz, de 56 anos, presidente para
a América Latina da Ace Seguradora, se considera um "dinossauro
do rádio". Começa o dia escutando noticiário
pelo rádio enquanto faz a barba e se prepara para ir ao trabalho.
"Das 6h às 8h, quando não tem horário político,
ouço rádio", diz ele, que repete a dose após
as 23h. Em seu escritório na Avenida Paulista, ele tem um rádio
de mesa, que liga nos intervalos das reuniões.
Apesar de ter acesso a outros aparelhos eletrônicos, Queiroz considera
o rádio mais prático, além do fato de a informação
ser em tempo real. Ele conta que criou produtos voltados para a população
de baixa renda tomando conhecimento das necessidades dessas camadas
por meio do rádio. A idéia de lançar um seguro
da conta de luz para quem perdeu o emprego nasceu ouvindo rádio.
As indústrias farejam um potencial maior de mercado para o produto.
A Dynacom, por exemplo, se prepara para dobrar a produção
atual de 15 mil rádios por mês a partir de 2005 com a expansão
da fábrica de Manaus. "O rádio não morreu",
diz o gerente Comercial, Eduardo Barrinha. Desde 2002 no mercado, a
companhia produz um modelo que pesa 164 gramas e custa R$ 28. A partir
de 2005, lançará três modelos. Negocia também
parcerias para fabricar rádios com a marca de clubes de futebol.
Barrinha destaca que a maior parte das vendas do produto se concentra
em cidades do interior. No Estado de São Paulo, essa fatia chega
a 70%. O supervisor geral da Lojas Cem, Valdemir Colleone, confirma
que os maiores volumes vão para a zona rural. Na sua rede, que
tem força nas cidades do interior de São Paulo e Minas
Gerais, para cada 3 TVs vendidos, 1 rádio portátil é
comercializado. "O rádio portátil nunca esteve fora
de linha. O consumo é certo", afirma Colleone. Empresários
dizem que o principal problema do mercado é o contrabando, que
deve girar volume equivalente ao do mercado formal.
Fábrica - A NKS, que importa da China 30 mil aparelhos por mês,
decidiu investir R$ 27 milhões numa fábrica em Salvador
para montar rádios a partir de 2005. "Esse mercado cresce
cerca de 6% ao ano", diz o sócio da empresa, Antonio Alves.
A expectativa é dobrar os volumes quando a fábrica estiver
a todo vapor. Hoje a empresa trabalha com dois modelos de rádio
portátil: um que pesa 80 gramas e custa R$ 19 e outro de 200
gramas, que sai por R$ 40. "Temos estudos para lançar outros
modelos."
A Semp Toshiba é outra que se prepara para lançar um segundo
modelo de rádio de mesa em 2005. A empresa, que nasceu produzindo
rádio, interrompeu a linha nos anos 90 e voltou a fabricá-lo
em 2002, quando a companhia completou 60 anos. Segundo o presidente
do grupo, Afonso Antônio Hennel, vale a pena investir no rádio
porque como o País tem dimensões continentais e a maioria
da população é de baixa renda, o item tem mercado
garantido.
A Motobras produz no País sete modelos de rádio, dois
portáteis e cinco de mesa, e quer lançar outros nos próximos
meses. Fundada em 1993, a fábrica em Brasópolis (MG),
com 160 funcionários, produz 30 mil aparelhos por mês,
dos quais 90% de portáteis. De acordo com a empresa, o mercado
potencial para o produto é muito grande, mas os impostos que
recaem sobre a produção limitam a expansão das
vendas. Do preço médio de R$ 42 no varejo, R$ 20 se referem
a impostos, informa a companhia.
Som melhor. E até
textos e imagens
Tecnologia digital trará
novos serviços para o velho rádio
Tudo está virando
digital no Brasil, menos a TV aberta e o rádio. A digitalização
permitiria um aumento da qualidade. As emissoras AM teriam a mesma qualidade
das atuais FM, enquanto as FM teriam um som próximo do CD.
Além disso, a digitalização possibilita às
emissoras transmitirem outros tipos de informação que
não o som, como textos ou até imagens.
Ainda não existe previsão de o rádio digital entrar
em operação no Brasil.
"Os radiodifusores já entenderam que precisam colocar à
disposição do público uma rádio competitiva
e com qualidade de áudio similar às outras mídias",
afirmou o diretor de Rádio da Sociedade Brasileira de Engenharia
de Televisão e Telecomunicações (SET), Ronaldo
Siqueira Barbosa. "O governo é o fiel da balança
dos radiodifusores."
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)
informou que analisa o assunto, mas que não há uma data
para a decisão a respeito da renovação do rádio.
Um grupo formado por representantes da SET e da Associação
Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) estuda duas alternativas
tecnológicas para o rádio brasileiro: o sistema europeu
Digital Radio Mondiale (DRM), que serve somente para o AM, e o americano
Ibiquity, para o AM e o FM. Ambos permitem a transmissão do sinal
digital simultanemente ao analógico, sem a necessidade de faixas
ou canais adicionais. Essa característica é conhecida
como In Band, On Channel (Iboc). Ou, em português, na mesma faixa
e no mesmo canal.
Em agosto, havia 128 estações de rádio americanas
com transmissão digital, de um total de aproximadamente 11 mil.
As vendas de aparelhos digitais ainda são baixas nos Estados
Unidos, e devem ficar próximas de 250 mil unidades este ano,
de acordo com a empresa de pesquisas IDC. O potencial, porém,
é grande. Em 2007, devem ser vendidos perto de 5 milhões.
Assim como ocorre no rádio via satélite (ver matéria
acima), o AM e o FM digitais podem transmitir informações
sobre a música que está tocando, identificando, na forma
de texto, seu nome, compositor e intérprete.
Dependendo do modelo, o aparelho tem a capacidade até de mostrar
a capa do disco de que foi tirada a faixa, ou uma foto do artista.
O visor do rádio pode exibir manchetes e mensagens comerciais.
Pelo rádio, um carro com sistema eletrônico de navegação
pode receber informações sobre itinerários e obstáculos
à frente, como acidentes, congestionamentos e obras. As emissoras
ganham espaço em sua faixa para transmitir conteúdo de
internet e outros tipos de informações para computadores
e demais dispositivos eletrônicos.
Existem de 4.100 a 4.500 emissoras comerciais em operação
no Brasil. Se forem adicionadas as emissoras educativas e comunitárias,
o total sobe para 6.700. Segundo estimativa do grupo Abert/SET, os custos
de digitalização devem ficar entre R$ 50 mil e R$ 150
mil para as emissoras. Os consumidores poderão comprar receptores
com preços entre R$ 400 e R$ 1,2 mil.
"Para a maioria da população, o rádio digital
deve demorar a chegar mesmo a médio prazo", afirmou o engenheiro
Flávio Nathan, da Gradiente. "Se houver empenho, o sistema
pode ser lançado no Brasil daqui um ano." O principal mercado,
numa primeira fase, deve ser o de aparelhos para o carro. Depois, o
de sistemas integrados. "Não é possível atingir
o patamar do que vendem os camelôs." (R.C.)
Nos Estados Unidos, a opção
via satélite
Sistemas como Sirius e XM oferecem rádio por assinatura
RENATO CRUZ
O rádio também
pode vir do espaço. Nos Estados Unidos, as empresas XM e Sirius
competem com as tradicionais emissoras AM e FM ao oferecer serviços
por assinatura, cada uma com mais de 120 canais digitais via satélite,
cobrindo todo o país. A XM, maior delas, distribui 68 canais
de música sem comerciais. Nos outros, notícias, entrevistas
e esportes. A empresa usa dois satélites geoestacionários
fornecidos pela Boeing e pela Alcatel. A mensalidade custa US$ 9,99
por mês. Em operação desde setembro de 2001, a XM
atende a 2,1 milhões de clientes.
Nos canais de música, os aparelhos de rádio via satélite
mostram em sua tela os nomes da música e do artista. Na semana
passada, a XM também lançou seus serviços via internet,
por US$ 7,99 ao mês. A Sirius, principal concorrente, permite
que seus assinantes ouçam os canais de graça via rede
mundial, mas não tem a opção de assinatura somente
pela internet.
Com mais de 500 mil assinantes, a Sirius tem um modelo bastante parecido
com o da XM, oferecendo 65 canais de música sem comerciais em
todos os EUA. A assinatura custa US$ 12,95 por mês. A empresa
espera atingir 1 milhão de assinantes até dezembro. O
principal mercado para o rádio via satélite é o
automotivo. As empresas têm acordos com grandes fabricantes para
que os veículos já venham com os rádios pré-instalados.
"O satélite deve ser o mais forte concorrente da mobilidade
do rádio", afirmou o diretor técnico da Sociedade
Brasileira de Engenharia de Televisão e Telecomunicações
(SET), Ronald Siqueira Barbosa. "Isso não significa dizer
que ele irá superar o rádio, pois o seu custo é
altíssimo para os padrões brasileiros." O serviço
de rádio via satélite não está disponível
no Brasil.
Fonte: O Estado de S.Paulo
- 20/09/2004
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