PERSPECTIVAS
OTIMISTAS
De
acordo com o Projeto Inter-Meios, o meio rádio fechou 2001 com
4,7% de participação no bolo publicitário, com
uma queda de 2% no faturamento em relação a 2000, ano
em que o setor havia conseguido, depois de um longo período de
estagnação, crescer acima da média do mercado.
Como a situação em 2001 não foi fácil para
ninguém, o resultado vem sendo analisado com serenidade.
Afinal, poderia ter sido pior, uma vez que a redução nominal
das verbas publicitárias chegou a 5,3%. Ao que tudo indica, os
esforços encampados nos últimos anos em prol do meio,
principalmente a partir da união de várias emissoras em
torno do GPR - Grupo dos Profissionais do Rádio, ajudaram a minimizar
os problemas.
Há quem julgue, inclusive, que o share do rádio já
seja maior do que o registrado no Projeto Inter-Meios. É que,
apesar das iniciativas que têm procurado reverter alguns dos problemas
históricos do setor, ainda é considerável o volume
de emissoras que não enviam seus dados para o Projeto.
Referindo-se à situação de Belo Horizonte, por
exemplo, Carlos Rubens dos Santos Doné, diretor de mercado da
Rede Itatiaia, observa que apenas cinco ou seis empresas da região
participam do estudo. Pelos seus cálculos, a inclusão
das informações das demais emissoras no Projeto elevaria
consideravelmente a participação do meio no bolo publicitário,
posicionando-a em patamares mais alinhados com a dos outros países.
No Chile, por exemplo, a participação das rádios
é de 10%, enquanto na Argentina ela ultrapassa os 15%.
A rede mineira vem fazendo a sua parte, e o desempenho comercial tem
melhorado. Hoje, a Rádio Itatiaia detém o quarto faturamento
entre os veículos de comunicação de Belo Horizonte,
perdendo apenas para o jornal Estado de Minas, TV Globo e TV Alterosa.
Uma das saídas encontradas pela emissora para ajustar melhor
seu modelo de negócios foi adotar a mesma programação
nas freqüências AM e FM. "O caminho vem sendo estudado
com atenção pelo mercado, até porque, ao contrário
do que ocorria no passado, hoje não existe grandes diferenças
no que tange ao perfil dos ouvintes", diz Doné.
Wagner Ferrari, gerente comercial da Rádio Capital, sediada em
São Paulo, explica que o programa da comunicadora Sonia Abraão,
por exemplo, tem uma boa parcela de classe AB. A emissora tem disputado
as primeiras posições no ranking da AM. "Repetir
a programação em FM talvez seja uma forma muito interessante
e econômica de ampliar ainda mais nossa audiência",
diz Ferrari.
Na experiência da Itatiaia, segundo Doné, a rádio
ganhou, além de uma maior abrangência de cobertura, mais
poder institucional.
Mariângela Ribeiro, diretora de marketing da Sucesso 96,9, de
São Paulo, explica que, apesar do cenário nada satisfatório
do mercado e do processo de mudança do nome da rádio (que
se chamava Rádio Cidade), sua emissora também não
pode reclamar do desempenho de 2001, pois registrou alta de 3% no faturamento.
A situação da Kiss, de São Paulo, como explica
Adhemar Altieri, diretor geral da emissora, foi um pouco diferente,
porque a rádio começou a operar justamente em julho, período
bastante crítico para o mercado. A decisão de lança-la
foi tomada no começo de 2001, e a expectativa era conseguir consolidação
até o fim do ano, o que não foi possível. "Uma
rádio já estabelecida enfrenta melhor uma eventual retração
do mercado. Tivemos que bancar o investimento", diz Altieri, revelando
que até agora foi investido aproximadamente R$ 1,8 milhão.
"Mas estamos tendo um resultado em termos de audiência e
qualificação. Segundo o IBOPE, 79% do nosso público
pertence a classe AB."
Perspectivas
Com relação às perspectivas para 2002, os executivos
que participaram do debate organizado pelo Grupo de Mídia estão
cautelosos. "De um modo geral, tenho a impressão de que
os negócios estão caminhando melhor do que no ano passado,
mas ainda não há reflexos disso na publicidade",
diz Altieri. Mariângela concorda com essa análise. Ela
explica que, no caso da Sucesso, o resultado do primeiro trimestre ficou
20% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.
Há consenso de que, a exemplo de 2001, o desempenho das emissoras
estará diretamente atrelado ao sucesso obtido no desenvolvimento
de alternativas tailor made para os anunciantes. "Hoje não
se consegue vender o meio rádio sem utilizar os projetos especiais,
viabilizando opções específicas para cada anunciante.
Isto é primordial para comprometermos o cliente", afirma
Altieri.
Na Rede Itatiaia, segundo Doné, o montante obtido com esse tipo
de negociação representou 14% do faturamento no ano passado,
e o resultado deve se repetir em 2002.
A Sucesso também tem apostado pesado na elaboração
de projetos especiais. Como expõe Mariângela, hoje a emissora
mantém uma equipe de oito pessoas apenas nesta área. "Temos
consciência de que precisamos apresentar outros tipos de solução,
com valores agregados, para agências e anunciantes. Uma emissora
jornalística pode até trabalhar com patrocínios
e merchandising, mas na FM a história é outra", avalia."
É difícil quebrar certos paradigmas, mudar o comportamento
do setor com relação a esse assunto. Por que não
podemos ter novamente um Repórter Esso? Temos flexibilidade para
desenvolver esse tipo de projeto", sugere a executiva. É
o que também defende Ferrari: "Hoje podemos viabilizar qualquer
idéia".
Altieri observa que os profissionais das agências já entenderam
essa predisposição das emissoras e têm apresentado
propostas diferenciadas para os anunciantes, que, no entanto, muitas
vezes não aceitam porque não estão habituados a
usar o rádio.
Como argumenta Doné, apesar do progresso registrado nos últimos
anos no que diz respeito à valorização do meio,
esse tipo de problema ainda é reflexo da forma como essa mídia
vinha sendo trabalhada. "Durante muito tempo assumimos a condição
de primo pobre. Hoje o rádio está mais profissionalizado,
mas teremos trabalho para recuperar o tempo perdido", analisa.
Mais
pesquisas
Ninguém duvida que consolidar essa nova posição
depende, também, dos esforços em prol da disponibilização
e do uso mais eficaz das informações relativas ao consumo
do meio.
Além das negociações que vêm sendo feitas
com o IBOPE para aprimorar os relatórios correspondentes aos
índices de audiência - nos quais a principal reivindicação
é incluir o consumo do meio nos automóveis -, as emissoras
também têm procurado intensificar a compra dos estudos
de caráter mais qualitativo.
Mariângela informa que, por intermédio do GPR, foi acertado
no ano passado o acordo com o MARPLAN para que as emissoras tenham acesso
à pesquisa do instituto por um custo mais acessível. "Iniciamos
também algumas conversas nesse sentido com o IBOPE para adquirirmos
o TGI. Mas o problema é que a base é muito pequena e o
estudo acaba não sendo interessante para as emissoras segmentadas",
salienta, lembrando que o assunto vem sendo estudado com cuidado, uma
vez que o custo é alto para as rádios. "Uma emissora
como a Sucesso investe cerca de R$ 12mil por mês apenas nos estudos
sobre audiência, sem considerar o MARPLAN. Só em pesquisas
qualitativas, para chegarmos ao perfil do nosso ouvinte, investimos
em 2001 mais de R$ 200mil. No caso do TGI, a base precisaria ser ampliada,
pois temos que usar os dados também para oferecer suporte à
área artística da emissora", revela.
Os executivos presentes ao debate foram unânimes em defender a
importância que vem sendo conquistada pelo GPR para sustentar
esses esforços. "Temos que manter essa união em torno
do grupo porque hoje, infelizmente, o rádio precisa provar suas
qualidades", atesta Doné.
Uma das iniciativas consideradas de grande valia, como cita Ferrari,
são chamadas rádio-visitas, eventos que têm reunido
executivos das emissoras com profissionais de mídia de agências
e anunciantes.
Futuro
promissor
Os executivos estão otimistas com a possibilidade de aprovação
do projeto de lei que permite a participação de pessoas
jurídicas e de capital estrangeiro nas empresas jornalísticas
e de radiodifusão.
"Isso
mudará a história da comunicação no país.
No caso das emissoras de rádio, os investimentos serão
prioritários para sustentar o processo de digitalização.
O importante nem é o capital estrangeiro, e sim a possibilidade
de termos novos sócios, incluindo empresários locais,
avalia Doné.
Mariângela complementa esse raciocínio, observando que
essa perspectiva de alteração do cenário será
primordial para exigir maior organização dos grupos familiares
que ainda dominam a área de comunicação. "O
grande barato dessa mudança é que vai acabar a história
de 'com quem eu falo' dentro da emissora, uma vez que teremos um board
, preocupado com os resultados que serão apresentados aos acionistas",
acrescenta Altieri. "Mas é bom que ninguém se iluda
com a idéia de que será fácil atrair os investidores.
Teremos que nos preparar para recebe-los", salienta.
O fato de haver ainda uma grande parcela de emissoras regionais nas
mãos dos políticos não preocupa os profissionais.
Eles são unânimes em defender que, principalmente nos grandes
centros, esse tipo de operação tem perdido espaço.
"As empresas de radiodifusão foram se estruturando nos últimos
anos e são atualmente operações que têm grandes
chances de se tornarem maiores. Não sei até que ponto
será possível que esse processo alcance os mercados do
interior, mas também não acredito que poderemos ultrapassar
de forma rápida essa fronteira, porque não temos informações
que sustentem as iniciativas", argumenta Mariângela.
Segundo Altieri, o modelo adotado no Brasil será semelhante ao
norte-americano, onde são raras as emissoras que não trabalham
com grandes redes de comunicação. "A disciplina e
automação dos sistemas permitem conectar três tipos
de rede: uma para programação, outra para serviços,
como metereologia, e outra para jornalismo. Eles se coordenam e disparam
tudo automaticamente", explica. "Quando esse sistema for implantado
no Brasil, será fantástico para as agências, uma
vez que o meio deixará de ser pulverizado", afirma.
Como destaca Doné, o mais importante é que haverá
uma seleção natural no meio, prevalecendo apenas as rádios
mais organizadas e profissionais. Mariângela concorda com essa
idéia. "Uma dúzia de grupos nacionais vai dominar
esse processo. Para fechar esse tipo de negócio é preciso
apresentar um histórico da situação financeira
da emissora, e grande parte das rádios não está
preparada para fazer isso", complementa.
O otimismo dos profissionais ao abordarem o assunto é justificado,
pois paralelamente às transformações operacionais
e estruturais, espera-se uma série de progressos no campo tecnológico.
Nesse sentido, destacam-se atualmente as novas opções
proporcionadas pela internet, que têm facilitado o acesso ao meio,
mas ainda está longe de explorar todo o seu potencial.
Como informa Altieri, a Kiss está tendo algumas experiências
interessantes a partir da iniciativas que unem áudio e vídeo,
por meio da web. "Estamos fechando um acordo com um grande portal,
o que garantirá mais visibilidade para essas opções",
relata.
O mais interessante é que isso é apenas o começo
da revolução que deve marcar os próximos anos.
"Teremos em breve uma gama de emissoras disponíveis para
ouvirmos de qualquer lugar, por causa da internet, e o segundo passo
é a possibilidade do acesso remoto, com tudo digitalizado",
acrescenta Altieri.
Mariângela é ainda mais incisiva ao analisar as possibilidades
que se vislumbram no futuro próximo. "Em dois ou três
anos não terá mais sentido discutir nem mesmo a questão
de AM ou FM", diz, observando que o que predominará será
a competência de cada emissora para conseguir se estabelecer a
partir de uma segmentação cada vez mais consistente. "No
começo os receptores digitais serão caros, mas logo os
custos serão barateados, como aconteceu recentemente com o DVD",
defende.
Mídia
Dados 2002