Novos tempos a favor do eterno rádio

As agruras contemporâneas - mais tempo no trabalho e no trânsito e menos tempo em casa - estão fortalecendo o rádio, a mídia eletrônica mais antiga do Brasil, que ressurge após décadas de discrição com fôlego novo na prestação de serviços e entretenimento. Seu resgate abre espaço imenso para experiências criativas, a exemplo das adaptações de textos literários, propostas pelo Rumos Literatura-Audioficções do Itaú Cultural, na avaliação de Antonio Rosa Neto, presidente do Grupo de Profissionais de Rádio e da Dainet Multimídia e Comunicações..

É bom ficar antenado: o rádio, líder de audiência das 7 da manhã às 7 da noite, batendo a televisão, vive uma época de transformações. A próxima, como Rosa Neto explica na entrevista a seguir, é o rádio por assinatura, com 3 milhões de assinantes nos Estados Unidos e deve em breve chegar ao Brasil..

Antônio Rosa Neto foi professor de mídia durante vinte anos (de 1980 a 2000) na Escola Superior de Propaganda e Marketing, ESPM, autor de Atração Global - A Convergência da Mídia e Tecnologia (Makron Books) e co-autor do Building an Information Society: a Latin American and Caribbean Perspective (Cepal).

As adaptações de textos literárias feitas para o rádio podem ser tão populares quanto as feitas para a televisão, o cinema ou o teatro?
Podem ser até mais populares, porque a televisão, por sua ampla audiência, tem de ter uma programação média, e fazer algo pasteurizado, enquanto o rádio é segmentado, diferente da TV. No rádio se pode fazer muito mais novelas do que na TV. Mas é preciso tomar cuidado para não fazer só dramalhão no rádio. O dramalhão talvez coubesse para alguns nichos, para as rádios que tocam forró, por exemplo, mas não para todos.

O que acha do programa Rumos Literatura - Audioficções?
O projeto do Itaú Cultural é maravilhoso, por resgatar o rádio. Costumo dizer que o rádio tem 82 anos, que completará em setembro, e um corpinho de 18, por estar preparado para enfrentar a nova realidade, sem demérito das outras mídias.

Qual a situação do rádio hoje no Brasil?
São 3,5 mil emissoras, que alcançam 90% da população, o mesmo que a TV. O rádio, até ontem relegado a quinto plano, está agora dando sinais de revitalização. O Ibope comentou outro dia que na faixa das 8h às 10h da manha há mais ouvintes de rádio que telespectadores. Em novembro do ano passado, das 6h às 19h, no Estado de São Paulo, eram 2,967 mil ouvintes de radio, batendo o número de telespectadores, que eram 2,408 mil. Os dados do Ibope já colocam o rádio no mesmo patamar de consumo de horas da TV, duas horas por dia por pessoa para cada meio. Acreditamos que cresça o tempo do rádio e diminua o da TV.

Então, as perspectivas para o rádio são promissoras?
Está na verdade ocorrendo uma enorme transformação da civilização humana: estamos assumindo muitas atividades. É inexorável que as pessoas sejam ativas. Estamos acordando mais cedo, trabalhando mais, e temos de dar conta dos cursos extras, da academia... Olhando para trás, vemos que nossos bisavós tinham tão poucos compromissos! No trânsito, estamos andando mais quilômetros a cada ano, o congestionamento deixou de ser uma coisa do horário do rush. Temos muito pouco tempo para acompanhar a informação e o entretenimento por meio da televisão, do jornal, da revista e da internet, os quatro meios exigem atenção total. A mídia é um produto de consumo como qualquer outro - um briga com outro. Se uma pessoa leu mais jornal, vai ler menos revista. O horário de consumo diário de informação e notícias diminuiu muito. Trinta anos atrás, a novela das 8 era um recorde de audiência. Hoje, a audiência migrou para a faixa das 9 e 10 da noite, junto com a novela das 8. E o áudio passou a ser elemento-chave no enriquecimento de informação, na prestação de serviços e entretenimento.

Nos Estados Unidos já existe rádio por assinatura nos carros...
Rádio por assinatura é uma forma de resolver uma das grandes limitações do rádio, a impossibilidade de acompanhar o deslocamento, porque as pessoas estão andando mais e, viajando, perdem o sinal. Uma emissora dos Estados Unidos, a XM... Tem a AM, a FM e agora a XM, os norte-americanos adoram tudo que tem X... A XM tem dois satélites, cobrindo de costa a costa, e 100 canais proprietários, não repetidos, no formato de gêneros, com rock ou clássicos, por exemplo. Vem direito do satélite para o carro, e custa só 9,90 dólares por mês. Já existem 3 milhões de usuários, e todo carro fabricado pela General Motors sai da loja com o XM. Os carros da Avis, uma locadora, já tem como diferencial a XM. A XM já tem concorrente, a Sirius, que tem três satélites e outros 100 canais de rádio.

As rádios por assinatura devem chegar ao Brasil?
Claro! Rádio mundial é uma questão de horas. Primeiro por causa do resgate do meio e por causa da tecnologia, que é global. Já globalizamos serviços e produtos, e agora com a tecnologia vamos também globalizar a mídia. Já está acontecendo, veja a Time Warner, a News Corporation, a Viacom. A News Corporation no Brasil já é dona da Sky e do canal Fox, que é feito fora, mesmo sendo apresentado em português.

Há espaço para a música brasileira nessa programação mundial?
Existe, claro, a opção de criar o canal Brazilian Music, a ser consumido no Japão e mesmo nos Estados Unidos. O próprio XM tem dois canais de Latin Music, mas só com salsa e merengue! Recomendei a eles fazer canal um de musica brasileira. Estão esperando a proposta de um distribuidor brasileiro.

Como não ficar para trás nesse processo de globalização da mídia?
No capítulo que escrevi para um livro que saiu em 2003 [Building an Information Society: a Latin American and Caribbean Perspective], publicado pelo Comitê Econômico para a América Latina, Cepal, e Organizações das Nações Unidas, ONU, mostro como os países da América Latina, deveriam se defender para entrar no cenário mundial da mídia. Ou seremos invadidos. A Globo não está conversando com a Televisa, mas deveriam formar blocos, pois é impossível agir sozinho lá fora. Em parte, é culpa do próprio sistema, porque só em 2002 saiu a lei que permite a entrada do capital estrangeiro nas empresas de comunicação.

Links:
Grupo de Profissionais de Rádio: www.gpradio.com.br
XM (rádio por assinatura): www.xmradio.com
Sirius (rádio por assinatura): www.siriusradio.com

Carlos Fioravanti, especial para o Itaú Cultural - junho 2004


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