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Novas tecnologias abrem
novos horizontes

Mesa-redonda
coordenada por Beto Genistretti e Flávio Rezende |
As condições nunca foram tão
favoráveis para o rádio. Esta foi uma das principais constatações
do encontro organizado pelo Grupo de Mídia com representantes do
meio. Entre os inúmeros fatores que têm conspirado nos últimos
anos para melhorar a situação do rádio pode-se citar
até a própria mudança de comportamento da sociedade.
Ao contrário do que apregoavam as
teorias de encapsulamento, em voga no final dos anos 80, as pessoas estão
cada vez mais nas ruas e, portanto, expostas a mídias móveis,
que acompanhem esse ritmo, como é o caso do rádio. "Quanto
mais ativa a pessoa, menor o seu consumo de mídia. Mas o rádio
não disputa o tempo do consumidor porque é o único
meio que pode ser consumido junto com qualquer outra atividade",
diz Antonio Rosa Neto, presidente do GPR - Grupo de Profissionais de Rádio.
Igualmente enfático na defesa do cenário positivo que se
vislumbra, Petrônio Correa Filho, diretor da Antena 1, lembra que
a indústria que mais cresce nos Estados Unidos e na Europa é
justamente a do entretenimento, à qual o rádio está
intimamente ligado.
Focando mais especificamente o movimento que acontece no mercado brasileiro,
também não é difícil encontrar elementos que
fundamentem as boas perspectivas para os próximos anos.
Em termos de audiência, segundo os executivos que participaram do
debate, os números estão ascendendo. Referindo à
situação da Globo, Nilo Frateschi Jr., gerente comercial
do Sistema Globo de Rádio, afirma que a emissora tem alcançado
índices que não eram atingidos desde a década de
70. "Isso tem acontecido porque nos últimos anos as emissoras
estão preocupadas com seus conteúdos, procurando programas
novos, alinhando com o gosto do público", argumenta.
"Entretenimento e serviço são focos do rádio,
e a tendência é o meio oferecer isso no futuro com muito
mais agressividade", observa Neto, lembrando que hoje as emissoras
têm investido nessa linha, como prova o fato de, em São Paulo,
conviverem quatro emissoras 100% focadas em jornalismo, todas com um faturamento
espetacular. "O rádio é o meio do futuro", defende
o executivo.
O tom otimista no discurso dos profissionais tem razão de ser.
Primeiro, porque se trata de um grupo que esteve envolvido diretamente
nesse processo de revitalização, via GPR.
Segundo, os resultados estão começando a aparecer. Em 2003
o meio registrou um crescimento de 14,4% em seu faturamento publicitário,
um bom desempenho, acima do total do mercado (que foi de 12,2%) e de meios
com revista, jornal, TV por assinatura e outdoor.
Ao comentar essa performance, Maria Cristina da Hora, diretora de marketing
da 89 FM, argumenta que, até pela difícil trajetória
dos últimos anos, as emissoras têm lidado melhor com as turbulências.
"Como sempre tivemos que trabalhar num cenário de retração
de verbas, acabamos adquirindo certo know-how. Tanto é que, apesar
dos pesares, crescemos consideravelmente em relação a 2002",
diz ela.
Promoções. A própria
Maria Cristina indica que um outro aspecto importante no sentido de assegurar
uma posição mais confortável para as emissoras tem
sido a competência para desenvolver um trabalho de caráter
mais promocional. "Temos conseguido tratar muito bem dessa questão.
O rádio é um meio que confere ao anunciante maior proximidade
com o consumidor, e isso está sendo valorizado", defende a
diretora da 89 FM.
Endossando essa análise de Cristina, José Diogo de Almeida,
diretor comercial da Nativa, revela que a sua emissora fechou 2003 22%
acima de 2002, justamente em virtude das ações promocionais.
"Temos feito também muitos eventos. Hoje são três
carros, sendo um preparado especialmente para as ações em
supermercados e lojas de varejo", detalha, lembrando que foram aplicados
cerca de US$ 1 milhão na montagem de um estúdio móvel
num microônibus, equipado para realizar inclusive a produção
de CDs a partir dos eventos.
José Luiz Nascimento Silva, diretor de mercado e novos negócios
do Sistema Globo de Rádio, é outro que defende que a abertura
das emissoras para a iniciativa de caráter mais promocional tem
sido decisiva para ajudar a driblar o cenário de retração
de verbas dos anunciantes. "Os investimentos para esse tipo de esforço
são tratados de forma diferente. Saem da verba de produto, e não
da de propaganda, o que nos favorece", enfatiza.
Sérgio Sitchin, diretor do Grupo Bandeirantes, também exibe
com orgulho os resultados das emissoras da casa: "Tivemos um crescimento
de dois dígitos por dois anos consecutivos e hoje o rádio
registra o melhor resultado entre as empresas do grupo".
Referindo-se à performance do meio, o executivo é categórico:
"O foco principal dessa recuperação é a questão
da eficiência. A verdade é que os anunciantes têm tido
retorno, tanto que possuímos clientes exclusivos. Enfim, como business
o meio está muito sólido".
Em função até da certeza de que está na hora
de começar a colher os resultados do trabalho que vem sendo realizado,
os profissionais presentes ao encontro mostraram-se confiantes com relação
à performance do meio em 20004.
Entre os fatos que levam a acreditar em um ano melhor, Sitchin indica
a estratégia anunciada pelo governo federal de ter o rádio
como a mais ou uma das suas mais importantes mídias. A notícia
é boa, já que estamos falando de um dos maiores anunciantes
do meio, com um share bem acima do geral do mercado.
"A expectativa é otimista. O primeiro trimestre já
foi bem melhor do que o de 2003", afirma Maria Cristina, frisando
que o resultado deve acontecer como fruto da somatória de ações
realizadas e que agora começa a tomar um corpo mais representativo.
Redes. No elenco de boas notícias
do meio certamente se sobressai o processo de formação das
redes, iniciado há alguns anos e a cada dia mais consolidado. Para
o mercado publicitário trata-se de um excelente caminho, na medida
em que melhora significativamente as condições em termos
absolutos.
Frateschi Jr. Observa que quando o SGR mostrou sua última rede
- a da Globo AM - visava exatamente qualidade de conteúdo e de
entrega e um apelo diferenciado para o mercado publicitário. "A
CBN foi a primeira, há dez anos. A idéia era certa, mas
o modelo estava errado. Com o tempo foi se reajustando e hoje está
consagrada. Tem muito pouco espaço para crescer, porque esse modelo
é caro. Na Globo AM a situação foi diferente. Hoje
temos 15 emissora e devemos chegar a umas 50 até o final do ano",
relata, salientando que para assegurar a questão da credibilidade,
hoje a rede faz um auto-checking. "Pagamos em dobro quanto falhamos,
o que tem um apelo positivo para o meio. Auditamos também o conteúdo
das afiliadas, porque esse modelo exige qualificação",
diz.
Maria Cristina lembra que hoje os parceiros de rede são completamente
diferentes dos do passado, quando se criava uma relação
de total dependência. "Agora levamos marca, tecnologia, know-how,
formação e capacitamos as emissoras para que consigam ter
uma melhor performance na praça. Essa questão é muito
importante", avalia, acrescentando que no modelo formatado pela 89
são de oito a dez horas de programação local.
"Rádio é local, regional e nacional. Tem toda essa
configuração", salienta Neto. "O meio consegue
ter essas características por causa do posicionamento assumido
por cada rede", completa Isabel Borba, diretora da Eldorado.
Maria Cristina lembra ainda as chamadas redes virtuais, concretizadas
a partir de parcerias com emissoras que têm como alvo o mesmo público.
A Alpha tem trabalho dessa forma no Rio, Minas e Brasília. Segundo
Almeida, A Nativa também tem acertado esse tipo de aliança.
Ainda de acordo com Almeida, hoje também são injustas as
afirmações de que o meio não tem pesquisa: "A
qualidade e a quantidade de pesquisas do rádio são excelentes.
Muitos meios estão longe de ter o que conseguimos".
Nesse campo, uma das boas novidades em 2003 foi o fato de o Ibope ter
conseguido disponibilizar dados sobre os locais de audiência do
meio, uma antiga reivindicação das emissoras. Os profissionais
estão otimistas também com a substituição
do Easy Plan pelo Radio Plan, que, além de uma amostragem maior,
terá um software muito parecido com o de TV, inclusive compatível
com o Jove. A expectativa é que esse tipo de ferramenta ajude a
mostrar que o meio não fornece apenas freqüência, mas
também cobertura.
No dia-a-dia, os profissionais estão empenhados em fazer simulações
que ajudem a provar a eficiência do rádio, principalmente
em comparação com outras mídias. "O mais importante
desses estudos é que eles possibilitam que se amplie o planejamento
de mídia, otimizando os recursos", ressalta Maria Cristina.
Cases. Os executivos presentes à mesa-redonda
foram unânimes em afirmar que iniciativas do GPR, como o lançamento
de um prêmio para prestigiar os melhores spots, têm sido fundamentais
para mostrar a forma de explorar a mídia da maneira mais adequada.
"Temos cases maravilhosos, que demonstram a força do rádio
e como é possível ter resultados excelentes quando bem empregado",
diz Isabel, da Eldorado, enfatizando que tem sido essencial a possibilidade
de usar o meio de maneira segmentada, explorando o posicionamento de cada
anunciante.
A respeito do movimento de mudança do mercado, ela destaca que
tem sido impulsionado pela mudança cultural ocorrida nos próprios
grupos de comunicação, que passaram a investir e valorizar
mais seus negócios, até por enxergar novas possibilidades.
Na parte comercial, segundo a executiva, o GPR uniu as rádios para
começar a trabalhar posicionamento e relacionamento. "Todo
esse movimento é respaldado pela tecnologia. Os avanços
nessa área revitalizaram o meio", defende. Os grupos de comunicação
começam a prestar atenção no que o rádio representa
como agregador de marca. No processo de reestruturação do
Grupo Estado ficou claro que a Eldorado como marca é tão
importante quanto os jornais ", relata a executiva.
Como observa Maria Cristina, todo esse trabalho vem sendo realizado já
há alguns anos, mas demorou para ser percebido por causa da quantidade
de emissoras. "Agora começamos a ter massa crítica",
assinala.
Apesar de o GPR reunir apenas dez emissoras, o trabalho da entidade, como
enfatiza Neto, ganhou abrangência porque não se trata de
uma atuação isolada, já que as demais participam
de várias ações.
Operacionalmente, Frateschi Jr. indica como um dos aspectos que têm
ajudado a alavancar os resultados o grande salto dado quanto à
aferição de veiculação. "Hoje temos duas
empresas - a Crowley e a Trackmedia - trabalhando forte nesse segmento.
Com isso acabamos com aquela história de o rádio não
entrega", informa.
Ainda que seja necessário reconhecer os esforços feitos
nesse sentido, não se pode negar que os problemas continuam existindo,
uma vez que é muito grande o número de emissoras espalhadas
pelo Brasil afora.
As novas tecnologias devem ajudar a solucionar alguns desses problemas.
Enfático ao abordar a influência das recentes tecnologias
nesse processo de revitalização do meio, Neto observa que
o rádio incorporou grande parte das novidades. "Hoje está
totalmente automatizado. Concluída essa etapa, de receber o material
em MP3, as emissoras poderão ser auditadas remotamente. Teremos
então um software de auditoria que jamais nenhum meio sonhou em
ter", acredita.
Via Internet. A questão da mobilidade,
também tão importante, está mais do que evidente,
extrapolando até os meios tradicionais. Este é um dos aspectos
salientado por Almeida, que cita o fato de, no ano passado, quando o Ibope
passou a disponibilizar informações sobre a origem da audiência
do rádio, ter aparecido, além de residência, trabalho,
automóvel, até supermercado.
Ainda nessa linha foi lembrado o fato de a Microsoft ter liberado o uso
do MediaPlayer, o que deve incitar o uso do rádio via internet.
Incrementando essa lista de boas novas proporcionadas pelas recentes tecnologias,
Sitchin cita a iniciativa do Ibope de começado a instalar people
metters em outros países para a aferição de audiência.
"Dependendo dos resultados, pode-se adotar esse tipo de sistema no
Brasil", afirma.
O próprio Sitchin chama a atenção para as mudanças
que são aguardas em termos de tecnologia de transmissão
digital, que nos Estados Unidos já foi regulamentada. "Estão
lançando receptores de cabo digital com custo acessível,
na média de US$ 200, e grandes indústrias estão trabalhando
nisso. Já estão preparadas para atuar no Brasil. O governo
Federal deve regulamentar o sistema irradiante digital ainda este ano,
e em pouco tempo vamos estar operando com rádio digital",
informa.
Mais cautelosa ao abordar o assunto, Isabel lembra que é complicado
determinar prazos para se trabalhar a partir do novo sistema. Primeiro,
porque tem sido apresentado ao mercado um sistema similar ao digital no
que concerne, por exemplo, à qualidade do AM. Segundo, porque tecnicamente
as soluções estão dadas, mas a questão agora
é política. "O mais importante é que temos coisas
importantes acontecendo. Há quatro ou cinco anos nem se cogitava
que esse processo de digitalização pudesse acontecer tão
rápido", frisa Maria Cristina.
Silva enfatiza que o aspecto mais significativo para o meio rádio
tem sido a qualidade de conteúdo. "Se temos algo bom para
oferecer, conseguimos reter o ouvinte e, conseqüentemente, trabalhar
em todas as plataformas que forem disponibilizadas. Essa cadeia começa
na qualidade de conteúdo. A tecnologia vem a reboque, buscando
a evolução contínua", avalia.
Com relação às atividades que estão sendo
preparadas pelo GPR para dar continuidade a essa boa fase do meio, Neto
cita a campanha publicitária que está sendo criada pela
Le Pera para promover os diferenciais do meio. Entre as iniciativas de
maior orgulho da entidade hoje se destaca o sucesso do prêmio, que
conta com o apoio do Maximídia, do Grupo de Mídia, que responde
pelo julgamento das peças inscritas, e de anunciantes como a General
Motors, que patrocinou a terceira edição, doando o automóvel
entregue ao vencedor, e já fechou negociação para
a próxima.
Share. Um dos aspectos do business que continua
insolúvel é a insatisfação quanto aos dados
do Projeto Inter-Meios, não em decorrência de problemas co
o estudo, mas sim pelo fato de haver um grande número de emissoras
que não declara seus resultados. "O montante apontado acaba
nos dando uma relevância menor do que a que merecemos. Informalmente,
no GPR fizemos um levantamento e chegamos a um número bem maior,
na casa dos 8%", salienta Maria Cristina.
Segundo Isabel, mais uma vez o GPR vai fazer um esforço junto às
operações, tentando convencê-las sobre a importância
de se enviar os dados.
"Vamos trabalhar em conjunto com o Inter-Meios. Precisamos disso
para melhorar a representatividade do rádio. Concordo que devemos
ter no mínimo o dobro dessa participação indicada",
afirma a executiva.
Neto observa que desde o início de suas atividades a entidade vem
procurando atuar nessa linha."Eram menos de 30 emissoras que participavam.
Conseguimos elevar bastante a base, para umas 100, mas não é
o suficiente. Acreditamos também que algum tipo de projeção
seria bem-vindo, porque todo mundo reconhece que o meio tem mais de 4,6%
de participação, mas não chegamos a um acordo com
o pessoal do Inter-Meios", revela. "É importante ficar
claro que se trata de um problema nosso, e não do Projeto Inter-Meios",
complementa Neto.
Um outro problema enfrentado, como salienta Neto, é com relação
à obrigatoriedade de A Voz do Brasil, que faz com que o rádio
tenha sua pior performance num horário muito importante, o das
19 horas. Segundo ele, o meio vai de 42% de cobertura para 11%. "Às
21 horas vamos buscar 17%. Nosso objetivo é a flexibilização
do horário do programa", argumenta Neto.
Este é um empecilho que a Eldorado não tem enfrentado, já
que tem uma liminar para deixar de transmitir o programa. "É
a única emissora que continua levantando a bandeira. Não
colocamos o programa no ar porque se trata de uma concessão, e
o cidadão tem direito de ouvir o que quiser", sintetiza Isabel.
Mídia Dados 2004 -
Julho - 2004
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