Nova postura no mercado
Meio afasta o complexo de inferioridade e afia as garras atrás
de prestígio
A participação
do rádio nas verbas publicitárias ainda provoca caretas
em profissionais do meio: morde 4,6% enquanto a TV devora 60,3% , de
acordo com o Projeto Inter-Meios. Mas há quem acredite que esses
tempos de magreza e fragilidade estejam no fim. O diretor do Grupo dos
Profissionais do Rádio (GPR), Antonio Rosa Neto, acredita que
essa realidade desfavorável deva ser modificada em razão
da desconstrução da percepção antiquada
sobre o meio. "A emissora de rádio hoje e a TV de amanhã",
diz o diretor, lembrando que o rádio já foi professor
da televisão nos tempos dos programas de auditório e das
novelas e que mais uma vez vai voltar a dar exemplo. "Hoje o rádio
não atua por grade, evoluiu para a segmentação
e se posicionou em nichos de mercado enquanto a TV aberta ainda não
conseguiu focar a programação", avalia.
De acordo com Rosa Neto, a sociedade atual não é dividida
em gênero, classe econômica e faixa etária. As pessoas
agora tem perfil psicográfico, tem tribo. "Ao contrário
da mídia de massa, cuja grade tende a agradar a gregos e troianos,
o rádio não perde público no entra-e-sai de programas
porque mantém a afinidade", afirma. Ele lembra que a segmentação
do rádio começou há 20 anos com o gênero
rock, depois com o jornalismo e atualmente ninguém mais procura
música no dial porque os aparelhos tem memória, o que
facilita e contribui para a fidelização.
Para se ter idéia da evolução da mídia rumo
à segmentação, nos EUA a TV paga tem 70% da audiência.
O canal líder é a Fox News, que acumula 1%, e esse índice
perde para o rádio. "A TV vai ter de aprender a lidar com
audiências menores, mais fragmentadas", dispara o diretor
do GPR. Esse processo caótico prometido ao meio TV já
foi enfrentado pelo rádio, que aprendeu a ampliar a audiência.
O Radio Advertising Bureau, da Inglaterra, mostra dados indicando que
o meio tinha, há dez anos, 2% das verbas publicitárias
do país, percentual que subiu 7% em 2003. Nos Estados Unidos
esse é o meio que tem alcançado maior crescimento no share
publicitário.
O rádio tem como aliadas a exposição descomplicada
e a limitação das outras mídias. Dá para
fazer qualquer coisa ouvindo rádio. Antonio Rosa defende que
o meio precisa investir no marketing dos próprios atributos.
Sua maior penetração está no publico entre 15 e
19 anos, 97%. Por mais antiga que seja, é a mídia favorita
entre os jovens. O diretor do GPR conta que simulou no software de programação
uma possibilidade de investimento publicitário. Ele deslocou
20% do valor total da verba publicitária de um anunciante e direcionou-a
ao rádio. "O radio entregou mais audiência que 100%
da verba em TV", afirma Rosa Neto. Também a frequência
foi triplicada e, segundo o diretor, contra números não
há argumentos.
De acordo com o diretor do GPR o rádio também aparece
como opção para anunciantes que apostam nas promoções
em no media, pois tem o próprio esquema de ações
fora dos estúdios, indo para o ponto-de-venda, ficando cara a
cara com o consumidor.
¨ MAIS REDES
Uma das coisas que ajudou a minimizar a síndrome do Patinho Feio
do meio rádio foi a expansão das redes. De acordo com
o superintendente da Transamérica, Luiz Guilherme Albuquerque,
o crescimento em rede rendeu maior credibilidade ao meio e certeza de
que o comercial vai ser veiculado no break net sem ter como o franqueado
cortar. "Antes as agências tinham o maior trabalho em contratar
a mídia porque era tudo picado", diz. A tecnologia também
contribuiu para ampliar os méritos do meio, pois a transmissão
de propaganda não se da mais via spot, mas por internet, no modelo
MP3 ou via satélite.
O VP de Mídia da Fischer América, Cláudio Venâncio,
afirma que se a publicidade brasileira está com os olhos voltados
para o rádio, trata-se de redescoberta, porque não existe
meio com maior penetração do que este. De acordo com ele
a agência tem mais de mil parceiros do meio dos mais variados
gêneros. "Se somarmos todas as emissoras de rádio
temos o segundo maior parceiro da Fischer. O primeiro é a Globo
e o segundo é o meio rádio", compara. No entanto,
Venâncio acredita que o complexo de inferioridade perante as demais
mídias permanece. O motivo? Segundo ele porque os grandes grupos
estão em mãos que não tem interesse em comunicação.
O diretor comercial da Rádio Caetés, de Recife, Alcides
Caminha, afirma que o meio ainda não conseguiu se desfazer do
rótulo de primo pobre da mídia e afirma que esse fato
se dá em virtude das agências de publicidade. "Existe
um forte movimento contra isso, inclusive há um estudo do Marplan
que valoriza o meio, o qual temos usado como argumento para realizar
vendas", pontua. De acordo com Caminha, o rádio pode ser
ainda pobre em faturamento, mas é rico em penetração.
Para comprovar a teoria, Caminha apresenta estudo que mostra que em
cada mil domicílios pernambucanos 818 tem rádio, 800 tem
TV, 166 tem revista, 46 tem jornal, 13 tem internet e 4 tem TV paga.
¨ QUALIDADE CRIATIVA
A síndrome de inferioridade que rodeia o meio emerge do mercado
de criação como principal obstáculo no desenvolvimento
de campanhas publicitárias. De acordo com o diretor nacional
de criação da Giovanni,FCB, Adilson Xavier, o meio é
uma mídia muito antiga que ficou com fama de velhinha apesar
de ser extremamente eficiente. "Algumas coisas estão acontecendo
nas programações de modo a incrementar a relação
com os ouvintes", diz. Xavier cita o programa Rock Bola, da Rádio
Cidade, que irradia um clima de MTV. "E importante que os anunciantes
valorizem mais o meio, pois um spot bem feito vale tanto quanto um filme",
compara.
Diretora da Rádio Eldorado, Isabel Borba diz que a exemplo da
Inglaterra e dos Estados Unidos, o rádio brasileiro, desde que
completou 80 anos em setembro de 2002, deu um salto qualitativo ainda
não refletido em fortes crescimento de share de publicidade,
mas já percebidos em resultados individuais. Segundo ela, a atuação
do GPR fortaleceu-se muito de três anos para cá com várias
frentes de trabalho na busca pela profissionalização e
valorização do meio. Alem disso, a inclusão do
Radio Lions no Festival de Cannes a partir de 2005 com certeza irá
contribuir para mudanças no meio. "Alguns aspectos importantes
dessa mudança referem-se diretamente as emissoras que, devido
a concorrência com outros meios, terão obrigatoriamente
de se adaptar para sobreviver e crescer', diz Isabel.
¨ PRESTÍGIO RESGATADO
Sergio Sitchin, diretor comercial da Rádio Bandeirantes, afirma
que considera coisa do passado dos profissionais de rádio se
sentirem inferiorizados. "Hoje o profissional de rádio é
tão capacitado como o de outros meios", diz. Na Rádio
Bandeirantes são realizados treinamentos intensivos com assessoria
do consultor Alexandre Rangel, cursos de pesquisa, informática,
negociação em vendas e de tempos em tempos ocorrem palestras
motivacionais. "Em 2004 participamos do RAB americano em Dallas,
assistimos a 30 palestras sobre comercialização de rádio
nos EUA", conta Sitchin. A RB também realiza intercâmbios
com emissoras americanas e o departamento comercial é altamente
organizado e informatizado. "Considero até que o profissional
de rádio leva vantagem sobre os outros, que é a agilidade,
devido ao imediatismo do veículo", diz. Segundo ele, este
profissional é tão qualificado que muitos migraram para
a televisão em funções decisivas.
A diretora comercial da 89 FM e diretora de comunicação
do GPR, Cristina da Hora, acredita que a criação do GPR
talvez seja a iniciativa mais consistente nesse sentido. O grupo, composto
por representantes de diferentes emissoras, até mesmo concorrentes
entre si, tem desenvolvido trabalho técnico muito interessante
e que mostra as inúmeras vantagens competitivas do rádio
em relação aos outros veículos, impressos e eletrônicos.
È um exercício de convencimento permanente que inclui,
além da abordagem técnica, ações promocionais
bem interessantes. Recentemente o GPR desenvolveu uma ação
muito criativa, usando carros de som na porta das principais agências
para, com isso, vender o conteúdo de programas, com comunicadores
das emissoras que integram o GPR levantando a bola do rádio na
linha "pamonhas, pamonhas, pamonhas". "O resultado foi
bem interessante", avalia Cristina.
Já a ação mais relevante promovida pela Associação
Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (ABERT) nesse
sentido foi o convênio firmado com a Crowley Broadcast Analysis
do Brasil. Trata-se de uma empresa multinacional que monitora a publicidade
veiculada pelas emissoras, processo também conhecido como checking.
Além disso, a empresa distribui conteúdo pela internet
para as associadas a ABERT e representa um grande benefício ,
principalmente para as pequenas emissoras do interior do país,
que não dispõem de recursos como as grandes, das capitais.
Texto extraído do
M&M Especial - Rádio
27/Setembro/2004