A nível de...

Tempos atrás virou mania alguém soltar um "a nível de" numa conversa, mau hábito que os professores de português lutam até hoje para tirar de muita gente. Ao refletir sobre a dificuldade em se arrancar das pessoas conceitos já tão arraigados, assim como de vender a idéia de que a língua portuguesa não é tão difícil assim, é que tracei uma analogia com o meio rádio. Depois de anos envolvido com a mídia impressa, e mais tarde com uma passagem pela TV, encarei o desafio de trabalhar em uma rede de emissoras de rádio. Confesso: nunca vi um meio tão mal tratado! Jocosamente ouvi até que o rádio é uma "mídia de cego". É a última verba a ser incluída no planejamento de uma campanha e a primeira a ser cortada.

Sim, é preciso concordar com os argumentos de que o meio rádio cometeu muitos erros no passado, mas até quando vamos ouvir o mesmo discurso? O tempo passou, o meio se organizou, contratou bons profissionais, porém, a ladainha é idêntica há mais de 20 anos. "A nível de". Escrever é difícil. Fazer um bom texto é difícil. Mais fácil é ser criativo com um belo desenho, que dá mais "retorno, prestígio e prêmios". O caso a seguir é verídico: depois de conhecer toda a estratégia montada para TV e mídia impressa, um anunciante pergunta à agência onde está o spot de rádio. A resposta é clara: se o conceito da campanha fosse aprovado, depois criariam algo para o rádio. Ou então, aproveitariam a mesma
trilha do filme da televisão.

Pela percepção do mercado, as pessoas só ouvem rádio de segunda a sexta-feira, das 6 às 19h. Fim de semana e à noite, nem pensar. Não é o que dizem as pesquisas. Mas pesquisas, para que servem mesmo? Uma delas realizada pelo Ibope , de junho/agosto de 2001, diz que nos finais de semana em São Paulo o rádio concentra 1,9 milhão de ouvintes por minuto. Nesses dias as pessoas continuam a dirigir seus carros, trocam o congestionamento da cidade pelo da estrada, fazem ginástica no parque com um fone de ouvido. Aliás, depois de lerem o caderno de classificados de seu jornal predileto, muitas pessoas saem nos finais de semana para comprar carros e imóveis, vão de carro ouvindo rádio. No caminho uma interessante propaganda desses setores poderia mudar completamente a sua rota para verificar uma boa oferta ou confirmá-la. Quando se utiliza o meio outdoor, o rádio pode ser um grande complemento ou vice-versa. O rádio é a voz
do outdoor, ambos estão nas ruas.


É importante ressaltar que há anunciantes e agências de propaganda que utilizam o meio com muita sabedoria e criatividade. Entre eles, é fácil e rápido lembrar de empresas como Estadão, Itaú, concessionárias Volks e Samsung, só para citar algumas. Quando alguém se dispõe a utilizar o meio rádio com criatividade o
resultado é marcante.

Por outro lado, sobram exemplos de chances perdidas. Um grande fabricante lançou recentemente um celular cujo maior atributo é a possibilidade de ouvir FM (rádio) no aparelho. A programação de mídia incluiu TV, revista e outdoor. Outro anunciante lançou há pouco tempo um alto-falante para automóvel, com um filme para TV maravilhoso. A Companhia Engenharia de Tráfego (CET) fez 25 anos e comemorou apenas nos outdoors. Só que os motoristas buscam alternativas de trânsito diariamente pelo rádio, um companheiro que nos grandes centros urbanos tenta nos ajudar a chegar em casa mais cedo e sem tanto estresse.

O rádio é descartado como uma mídia net, sob argumentação de que não é líder em todas as praças e apresenta diferente perfil de ouvintes nas diversas regiões. Bobagem. O perfil do leitor das revistas de informação também não é diferente em cada praça? E o telespectador não é o mesmo caso? As audiências de TV
também não são diferentes em cada praça?

Durante o dia o rádio tem mais audiência do que a TV. Só perde no período entre 19 e 22 horas. Outra pesquisa aponta que 90% das salas de espera de médicos e dentistas ficam com o rádio ligado o dia inteiro. No apagão é também o companheiro, já que a pilha e o rádio do carro ainda não estão em racionamento. Aliás, a loucura do trânsito das grandes cidades faz com que as pessoas fiquem cada vez mais dentro dos automóveis e, claro, não vêem televisão, mas ouvem rádio. Esses grandes diferenciais, porém, não tiveram reflexos no investimento publicitário.

Nem a Internet atrapalhou o meio, segundo a 3a Pesquisa Cadê Ibope. Não se ouve menos rádio por causa da Internet. Pelo contrário, são dois meios aliados. Agora mesmo, você pode estar com a Internet aberta, o M&M nas mãos e ouvindo rádio. Se não estiver, então não perca tempo. Escolha uma emissora de sua
preferência e bom divertimento.

Ah! Só falta as indústrias de aparelhos de áudio quererem anunciar no rádio, isso é
absurdo!!!


Meio & Mensagem - 17/12/01


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