MÚSICA
VIGIADA
GIL APÓIA PROJETO DE CRIMINALIZAÇÃO DO JABÁ;
RÁDIOS SE OPÕEM
Está
em gestação um projeto de lei que irá agitar a
indústria fonográfica e as rádios: a criminalização
do jabá (execução de música mediante pagamento).
A proposta está sendo elaborada pelo deputado federal Fernando
Ferro (PT-PE) e deverá ser apresentada ao Congresso ainda no
primeiro semestre deste ano.
O objetivo do parlamentar é proibir que as emissoras cobrem para
inserir uma música em sua programação, o que, segundo
ele, tira o espaço de artistas iniciantes.
A iniciativa já ganhou o apoio do Ministro Gilberto Gil (Cultura)
e a oposição das rádios, que lucram com esse esquema
de divulgação.
Segundo a Folha apurou, grandes redes de rádio chegam a cobrar
até R$ 20mil para inserir uma música de lançamento
em sua programação. As gravadoras negam a existência
de jabá, e a Associação Brasileira dos Produtores
de Discos, que as congrega, afirma que não se pronuncia sobre
o assunto porque o projeto de lei não existe.
Entre artistas consultados pela reportagem, a maioria adota postura
cautelosa, mas com posicionamento a princípio favorável
à criação da lei. "O bacana do momento é
que se sente finalmente um movimento de representação
efetiva das demandas da classe musical. Não é à
toa que estão retirando os esqueletos de dentro dos armários",
diz Lulu Santos.
No ano passado, o cantor havia criticado a lei que pedia a numeração
dos CDs, visando um maior controle da indústria fonográfica
(a regra foi aprovada e entra em vigor no próximo dia 22).
Lenine, um dos que encamparam a luta pela numeração, hoje
fica do mesmo lado de Lulu: "Sou completamente contra o jabá.
As concessões de rádio têm regras, e uma delas é
que o veículo pode comercializar seus intervalos. Negociar o
tempo destinado à veiculação de trabalhos artísticos
são outros quinhentos".
O compositor embute em sua crítica a questão de as rádios
veicularem música sem avisar seus ouvintes de que se trata de
matéria paga, às vezes até disfarçando a
parada de sucessos.
Os termos da lei do jabaculê estão sendo discutidos com
Lobão já conhecido pela oposição a essa
prática, comum em AMs e FMs . O músico diz que quer incluir
na redação do projeto "a criminalização
do jabá, designando punições severas como multa,
perda de concessão da emissora e prisão".
Na semana passada, Lobão apresentou a proposta do projeto de
lei a Gilberto Gil e obteve seu aval. O assunto foi debatido numa reunião
de exposição dos primeiros cem dias de governo para a
classe artística, na segunda-feira da semana passada, no Rio.
"Muito bem, Lobão, você está um garotão",
brincou Gil, quando o cantor apresentou, dentre vários planos
para a cultura, a intenção de coibir o jabá.
O ministro, segundo sua assessoria de imprensa, demonstrou apoio ao
projeto, principalmente porque quer estimular os artistas a se mobilizar
e a propor soluções para o que consideram problemas do
meio.
A aprovação de Gil também selou a reconciliação
entre ele e Lobão, que havia criticado sua escolha para o Ministério
da Cultura.
Merchandising
O deputado
Fernando Ferro afirmou à Folha que o problema do jabá
é que ele força o consumo da indústria fonográfica.
"Os ouvintes consomem uma operação financeira e não
uma opção de programação".
Além do pagamento informal de jabá, Ferro rejeita também
os métodos mais modernos do esquema, a chamada "verba de
divulgação", paga pelas gravadoras às rádios
com nota fiscal.
"Esse é um nome cínico dado à mesma operação,
que força mercados e exclui artistas que não tenham estrutura
para tanta concorrência", afirmou.
Segundo ele, as rádios teriam pelo menos a obrigação
de deixar claro que determinada música está sendo tocada
mediante pagamento. "Seria uma maneira de dividir o espaço
editorial do publicitário, deixando claro que a seleção
da música foi resultado de negociação financeira".
Antonio Rosa Neto, presidente do GPR (Grupo dos Profissionais de Rádio)
não concorda com a separação e compara o jabá
de rádio ao merchandising nas novelas.
"Se o consumidor souber que alguém pagou para aquele produto
entrar na história, a propaganda perde a força. Da mesma
forma seria se o ouvinte soubesse que uma música está
no ar porque houve pagamento".
Para o parlamentar, essa distinção seria obrigatória,
principalmente pelo fato de TVs e rádios serem concessões
públicas.
Rosa Neto também refuta esse argumento. "Emissoras são
presas e têm de faturar".
Ferro afirma que vai se basear na legislação de outros
países em relação ao jabá. Ele já
pediu o texto da lei norte-americana à embaixada dos Estados
Unidos, onde a prática é chamada de "payola".
Lá ficou célebre a investigação promovida
nos anos 60 pelo Congresso Nacional contra empresários musicais
como Dick Clark e DJs como Alan Freed, que haviam desempenhado papel
fundamental na ascensão do rock'n'roll e do rhythm'n'blues nas
paradas.
Os congressistas estavam convencidos de que as rádios só
tocavam rock porque eram subornadas com dinheiro - ou seja, jabá.
Investigado, Alan Freed declarou-se culpado no tribunal, teve sua carreira
arruinada e abriu precedente para um controle rigoroso da questão
no país.
Saiba Mais
O
que é jabá?
No Dicionário Aurélio, jabá é sinônimo
da gíria jabaculê, que significa dinheiro ou propina. O
termo batiza uma prática comum e antiga nas rádios: a
execução paga de música.
Como
é o acordo?
As gravadoras pagam para que a música de seus artistas toque
durante um determinado período. Os contratos chegam a determinar
horários e quantidade diária de inserção.
Tem
nota fiscal?
Antes, tudo era negociado informalmente, na surdina, direto com locutores
e programadores. Hoje, as grandes rádios capitalizaram a comercialização
dos espaços, fazendo contratos com nota fiscal. Nesse caso, a
operação se chama "verba para divulgação".
Como
seria a lei?
O deputado Fernando Ferro (PT-PE) pretende tornar crime tanto a prática
informal do jabá como a chamada verba para divulgação.
Prós
e contras
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, e alguns artistas já manifestaram
apoio à idéia. Empresários de rádios e gravadoras
são contrários à proposta.
Folha
de São Paulo/Ilustrada - 15/Abril/2003