Grupo de Mídia debate o rádio no Brasil

Um debate promovido pelo Grupo de Mídia de Brasília sobre o mercado de rádio discute a participação do veículo nas verbas publicitárias das agências, a implantação do rádio digital e as mudanças de conteúdo.

O ciclo de debates promovido pelo Grupo de Mídia de Brasília, no início de março, tratou da evolução do rádio na última década e da eficiência da mídia, sem dedicar muito tempo para avaliar as perspectivas do mercado com a implantação do rádio digital. Embora o presidente do grupo, Marco Frade, também esperasse maiores discussões sobre o tema, esse não era o maior interesse do público presente, composto de profissionais e estudantes de comunicação. É preferível dar vazão ao debate, porque é isso o que a platéia está querendo. Ciclo de debates é exatamente para isso, para poder dar vazão, discutir o que está na ordem do dia, explica Frade.

Mais espaço
Um dos aspectos enfatizados no ciclo de debates foi o fato de a vida moderna estar beneficiando o mais antigo meio eletrônico de comunicação de massa, o rádio. Ao contrário do que se poderia pensar, o veículo não perdeu força com a chegada da Internet. Ele entrou na rede mundial, e hoje muitas pessoas praticam, diante da tela do computador, o velho hábito de se informar ou se entreter por meio do rádio ou das webradios. O maior número de atividades da sociedade do século XXI afeta o tempo de consumo das mídias, uma vez que as pessoas passam a ter menos disponibilidade para ler jornal e revista ou assistir à televisão. O rádio, entretanto, ganha mais espaço. Com o rádio, é possível fazer todas as atividades (simultaneamente), observa Antônio Rosa Neto, presidente do Grupo de Profissionais de Rádio. A mídia móvel é a que vai trazer mais audiência, garante.

Contra o argumento de que, por permitir atividades paralelas, o rádio tem um consumidor mais disperso, Antônio Rosa rebate: É preciso trabalhar a imaginação para chamar a atenção da pessoa. Mas a oportunidade existe, o que não acontece em outros meios. Antônio Rosa ressalta que, ao contrário do que se pensa, o rádio se comunica bem com o público jovem. Ele tem 81 anos, mas está com um corpinho de 18, brinca. Rosa se baseou em uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) para mostrar também que, das 6 às 19 horas, há mais ouvintes de rádio do que telespectadores. Nos últimos anos, a audiência do rádio cresceu e o meio lidera em termos de horas consumidas. No rádio, está acontecendo um fenômeno inverso: ele cresce enquanto os outros caem, afirma Antônio Rosa. No entanto, os investimentos publicitários no veículo não ultrapassam 4,5% do total das verbas, enquanto a televisão tem ficado, nos últimos anos, com aproximadamente 60%. À frente do rádio estão ainda os jornais e as revistas. O problema está no marketing. É uma questão de imagem, acredita Antônio Rosa. Para ele, o veículo precisa aproveitar a inflação de oferta de produtos que existe com a nova economia e se inserir melhor em um contexto em que a propaganda é fundamental para quem quer vender.

O investimento em propaganda cresceu com a abertura da economia, observa Antônio Rosa. De acordo com o presidente do Grupo de Profissionais de Rádio, em 2002 esses investimentos foram de R$ 13 bilhões. Investimento planejado
Márcia Detoni, diretora da Radiobrás, acredita que a dificuldade em planejar investimentos publicitários em rádio está no grande número de emissoras que existem hoje no Brasil. São cerca de 3.600 – e chega a 20 mil se consideradas as rádios comunitárias –, contra 374 emissoras de televisão.

O rádio precisa investir em si mesmo para atrair verbas, disse Márcia. De acordo com a diretora da Radiobrás, esse investimento deve tentar mudar e inovar o conteúdo, além de melhorar a situação dos profissionais que trabalham no meio, com baixos salários e condições técnicas nem sempre dentro do necessário.

É preciso ter coragem. Mesmo as emissoras de jornalismo 24 horas têm muito a acrescentar. Estão demitindo muito, deixando muitas pautas boas de lado. Há espaço para radiodocumentário e para trazer os sons da rua, defende Márcia.

Voz do Brasil
O debate esquentou quando o tema A Voz do Brasil foi levantado por Antônio Rosa Neto, que defende a flexibilização do horário de apresentação do programa. Várias pessoas da platéia se manifestaram sobre o assunto, com críticas à imposição do programa e também defesas, baseadas nos argumentos de que os habitantes de municípios distantes têm na Voz do Brasil a principal forma de informação.

A representante da Radiobrás defendeu a posição de que o programa deve existir e sugeriu que os interessados no fim da Voz do Brasil façam manifestações e pressões com os deputados federais e senadores, uma vez que cabe ao Congresso Nacional decidir sobre a veiculação do programa.

Digitalização em 20 anos
Sobre a implantação do rádio digital no Brasil, Rosa Neto afirmou acreditar que os padrões existentes no mundo ainda não são viáveis e não vê como possibilidade o desenvolvimento de uma tecnologia nacional. Ele acredita que os meios digitais possam trazer ainda grandes surpresas em breve, como o surgimento de uma tecnologia híbrida, que envolva a Internet.

Para Márcia Detoni, diferentemente do que aconteceu com a televisão, as emissoras de rádio não estão promovendo ações junto ao governo federal na busca de uma tecnologia – seja ela nacional ou não – para a implantação do rádio digital.

O que se vê são emissoras acompanhando, mas não uma iniciativa para acelerar o processo de estudo e implantação de um modelo de rádio digital, porque isso implica gastos que elas (as emissoras) não têm condições de fazer agora, observa Márcia Detoni, pois o custo para adaptação dos equipamentos pode chegar a US$ 270.000.

Além disso, de acordo com Márcia Detoni, experiências nos Estados Unidos e na Europa apontam para a resistência por parte do público em adquirir os aparelhos, que custam cerca de US$ 200. As pessoas não vêem as vantagens apresentadas, baseadas na qualidade do som, como suficientes para o gasto. O futuro do rádio é o rádio digital, só que vai demorar. Tem gente falando em 20 anos, afirma ela.

Esse tempo pode ser suficiente para que as emissoras se preparem para a nova fase na luta pela verba publicitária. Aumentaria a segmentação e a briga por verba publicitária, porque vai ter um número maior de emissoras. E aí quem chegar na frente vai pegar a elite, que vai ser a primeira a comprar (os receptores). Quem estiver preparado e largar na frente vai conseguir anunciar produtos de alta qualidade para aquele segmento que vai comprar, acredita Márcia.

O número de emissoras dividindo o bolo publicitário vai realmente aumentar, mas, na opinião de alguns, o que deve continuar valendo são as leis de mercado. Aquela (emissora) que tivesse mais audiência, pelo conteúdo (oferecido), teria mais interesse por parte das agências de publicidade, completa Antônio Rosa.

Revista Produção Profissional - Março - 2004


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