A realidade e a magia do rádio

O aniversário em setembro da Rádio Nacional, prefixo emblemático, é uma oportunidade para refletir sobre esse poderoso e nem sempre valorizado meio de comunicação

ALUÍZIO FALCÃO
Especial para o Estado

Em agudo grau de ansiedade, aquele homem seqüestrado há vários meses e repentinamente abandonado pelos algozes em seu cativeiro, tentava contato com os vizinhos: "Sou fulano de tal, avisem as rádios!" Ele imaginava que esse grito, de tão sofrido, pudesse atravessar as paredes, e conseguiu. Libertado, proclamou que o rádio AM era o meio certo para mobilizar a polícia com a rapidez necessária. Declarou-se um fiel ouvinte desse veículo que muita gente supõe de segunda classe. "Eu sou AM, sempre fui AM", disse aos repórteres, entusiasmado com o êxito de sua estratégia. A declaração não teria o peso que teve se feita por mim ou qualquer outro fulano. Mas o seqüestrado era Washington Olivetto, autoridade inquestionável em comunicação. Quando uma cabeça moderna como a dele pensa desse jeito, algo tem que mudar na cabeça de quem julga o rádio menos eficaz do que a tevê ou a internet. Em palestras ou entrevistas diversas, Olivetto reitera freqüentemente a opinião. Destaca sempre o fato de que o rádio entra com o áudio e o ouvinte com a imagem, fascinante exercício intelectual e exemplo máximo de interação. Contrariando a visão glamourosa que se tem de um publicitário bem-sucedido, Washington costuma dizer também que ouve rádio em casa,
como qualquer morador de subúrbio distante. Para ele, a música popular é um "radar social". Ouve tudo, de A a Z. Entusiasma-se com Maria Rita, sua cliente, mas confere a Martinho da Vila, de graça, o título de "a cara do Brasil". A paixão pelo rádio começou na infância, quando seu pai comprou um Transglobe que pegava emissoras do mundo inteiro.
Hoje, Dia da Radiodifusão, conforme impresso nas agendas, registremos que assim como Olivetto a nossa geração viu o rádio sobreviver a muitos agouros no início dos anos 60, quando a televisão se consolidou no Brasil. Antes, milhões de garotos brasileiros esperavam engrossar a voz para usá-la em um microfone. Ser locutor de rádio era mais importante do que ser Rei de Pasárgada. Acompanhávamos, religiosamente, o esplendor da Rádio Nacional. De longe, bem longe, enquanto o privilegiado Caetano Veloso, por exemplo, em férias no Rio, via tudo de perto naquele famoso auditório da Praça Mauá, que era apenas um sonho em nossos remotos cafundós.
A Rádio Nacional foi o primeiro marco verdadeiramente importante do rádio brasileiro. Tudo começou em 1936, com a sua inauguração, e não em 1922, como juram historiadores que celebram datas e não o seu significado e conteúdo.
Pois neste mês de setembro, com o mesmo prefixo e sem as glórias do passado, a PRE-8 completou 68 anos.
Quando fez o vigésimo aniversário, em 1956, a emissora publicou um livro comemorativo. Naquela data estava irradiando 16 novelas, 10 outros seriados de rádio-teatro, 15 programas mistos e 6 programas especializados. Renato Murce, em suas memórias, resume outros números que sustentavam aquela grade de programação: 76 cantores e cantoras; 99 músicos contratados; 47 músicos de cachê; 16 conjuntos regionais; 10 solistas; 46 locutores; 22 produtores; e 112 radioatores e radioatrizes.
Embora os dados se agigantem em todos os setores, vê-se uma exceção: o jornalismo, na Rádio Nacional, dispunha apenas de 5 repórteres. Isso talvez se explique pela extraordinária credibilidade do Repórter Esso, na voz memorável de Heron Domingues. Recentemente, um CD que marcou os 60 anos do Senai resgatou uma gravação em que ele anuncia o fim da Segunda Guerra Mundial. Muitos, como eu, puderam reviver aquele momento especial da infância, quando a família, em torno do rádio, escutava quase chorando essas palavras de Heron:
"Amigo ouvinte, aqui fala o Repórter Esso, testemunha ocular da história. À espera do dia da vitória vivi momentos tão mocionantes como os de um general no campo de batalha. A Rádio Nacional era o meu centro de operações e aqui instalei a minha cama ao lado de um telefone em comunicação direta com a United Press. As grandes notícias chegavam, abalando em primeiro lugar os nervos do repórter vigilante:
... Mussolini acaba de ser enforcado na Praça Loretto, em Milão!... A Rádio de Hamburgo, depois de transmitir O Crepúsculo dos Deuses, durante muitas horas, acaba de anunciar: o führer morreu! Terminou a guerra! Terminou a guerra! Terminou a guerra!"
Mas a lembrança mais forte da Nacional vem de outras vozes, ainda hoje nítidas em discos antigos: Orlando Silva, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Dorival Caymmi, Dick Farney, Cauby Peixoto, Lúcio Alves, Jorge Veiga, Ciro Monteiro, Luiz Gonzaga, Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Nora Ney, Linda Batista, Dircinha Batista. E mais 46 nomes para completar uma lista de 76 no livro de aniversário.
Foram esses cantores e cantoras que fizeram a trilha sonora dos nossos grandes amores inaugurais na adolescência. Canções demarcam fases da vida.
Para gente da minha idade, a bossa nova chegou no auge da juventude e nos fez esquecer um pouco a Rádio Nacional com aquele repertório que, antes, parecera eterno, definitivo. Depois, quando supúnhamos que as dissonâncias de João Gilberto eram para sempre, eis que veio a fase dos festivais.
Chegaram Caetano, Chico, Vandré, Milton, Gil, Elis, Nara, Gal,
Bethânia, Rita, Clara. Novas marés tangeram as ondas do rádio - que hoje mostra um perfil absolutamente diverso do que foi traçado até aqui.
As emissoras AM da atualidade voltam-se quase exclusivamente para uma linha noticiosa, com entrevistas e coberturas em tempo real.
Aproveita-se, nesse caso, a liderança do rádio no quesito credibilidade entre os veículos eletrônicos. Abocanha uma fatia de 75% contra 54% da televisão, conforma pesquisa do jornal Meio & Mensagem.
Outros levantamentos apontam a existência, em cada casa, de dois a três receptores de rádio e dão a esse veículo 99% de presença domiciliar contra 75% da tevê. Nos automóveis os aparelhos de rádio chegam a 95% e os de televisão praticamente inexistem, com apenas 1%.
O chamado horário nobre, aquele de audiência maciça, tem no rádio uma duração de 13 horas (das 6 às 19 horas), enquanto o pico de audiência na tevê restringe-se a 4 horas (entre 7 e 10 da noite). Segundo o Ibope, as pessoas passam 17% mais do seu tempo ouvindo rádio do que olhando a telinha.
Já o rádio FM, essencialmente musical devido ao som estéreo, é quase uma lástima. Embora com os mesmos bons índices e vantagens sobre a tevê, encontra-se atualmente, salvo raras exceções, sob controle das grandes gravadoras. O play list é nivelado por baixo, excluindo absurdamente a obra de compositores e intérpretes mais importantes do Brasil. Em São Paulo, que eu saiba, entre dezenas de rádios FM, apenas a Eldorado, a Rádio USP e a Nova Brasil, tocam Tom Jobim, Chico Buarque e Gal Costa, para citar três nomes. O ideal em som estéreo seria que o ouvinte pudesse fazer como Washington Olivetto (que naturalmente complementa suas audições com discos): ouvir tudo, de A a Z, e não apenas o que a indústria fonográfica oferece em seu cardápio quase sempre intragável.

O Estado de S.Paulo - Caderno 2 - Rádio - 27/09/04

 

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